quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Curitiba/Rio - Claudia Washington

Claudia residiu na casa de Andrei, no bairro de Botafogo, onde o artista vive com sua esposa e a filha de dois anos. A artista chegou ao Rio com uma extensa rede de contatos de artistas e espaços independentes e durante sua estadia na cidade intercalou visitas a ateliês e feiras de antiguidades. Claudia tem como forte de sua produção visual gráficos e siglas que funcionam como a tradução de seus encontros e trocas. A artista se apropria de sentimentos ou objetos alheios para criar sua estatística de percepções. Ela criou a sigla GAF, para denominar Gustavo, Andrei e Flávio como "uma unidade vivencial em trânsito", e com esta desenvolveu o gráfico abaixo sobre um episódio que ocorreu no período de residência do trio em sua casa em Curitiba, envolvendo seus vizinhos, a imobiliária de sua casa, uma suposta presença da polícia e seu companheiro de moradia, Lúcio.

A convivência entre os quatro artistas participantes dessa última etapa do projeto foi bastante singular. Além das adversidades que podem surgir do convívio entre grupos, as linguagens e escolhas poéticas do Gráfica Utópica ou Circo dos Sonhos e da artista Claudia Washington eram opostas. Tal fato gerou um saudável conflito de idéias, possibilitando um exercício de absorção e interação com o diferente.

"As relações e ações geradas a partir da proposta do 4territórios podem ser sintetizadas para mim nesses dois termos, contraste e complementaridade.
Contrastes observáveis no modo de pensar imagem, no modo de agir no mundo, nas escolhas entre o processual e o objeto acabado, nas referências, na geografia, na fala, no movimento...
Complementaridade porque no fim das contas não precisamos chegar a um denominador comum, pude observar no outro (meu espelho invertido) muito daquilo que penso e quero."

Claudia realizou seu trabalho pelas ruas do centro do Rio. Com a câmera, abordava passantes, indagando sobre suas percepções individuais acerca de determinadas palavras extraídas do próprio dia-a-dia que a artista estava vivenciando na cidade.

"No exercício do lugar e na distância de casa outras palavras surgiram, um chavão de viagem (saudade), uma referência do processo (contraste), uma incongruência (estabilidade), uma outra abordagem (revelação), uma ambiguação útil (euphoria), que serviram de pontes para as relações que busquei na intervenção, muito mais atitude relacional."

Para ler relato da artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/claudia-washignton.html
Para ver fotos: http://picasaweb.google.com/4territorios/ClaudiaWashington#
Para er o vídeo: http://br.youtube.com/watch?v=Kl8t0LxsRkY&feature=related

Rio/Curitiba - Gráfica Utópica ou Circo dos Sonhos

Gustavo escolheu participar do projeto acompanhado de mais dois artistas, Andrei Muller e Flávio Vasconcellos, que formam o grupo Gráfica Utópica ou Circo dos Sonhos. A decisão do artista, discutida previamente com a curadora, de estar acompanhado de seu coletivo se dá devido ao momento de produção visual em que se encontra Speridião – que além de seu trabalho individual também vem realizando ações em grupo. As pesquisas do Circo dos Sonhos se cruzam com as propostas do 4territórios, como a posição do olhar estrangeiro, a situação “viagem” e a convivência entre esses três indivíduos.

Claudia Washington aceitou o desafio de receber em sua casa recém-alugada três artistas que não conhecia e que chegaram com a proposta de um trabalho coletivo construído a partir da rotina da casa e do dia-a-dia dessas quatro pessoas.
Durante o período de residência em Curitiba a convivência entre o trio e a artista foi somada de mais dois elementos: o grupo Orquestra Organismo e o espaço e coletivo e/ou.

Andrei, Flávio e Gustavo residiram no bairro de Água Verde, de classe média, onde encontraram certa dificuldade de relacionamento com vizinhos e transeuntes.

"No caminho não achamos ninguém.
Andamos porque não sabiam dizer como pegar algum transporte coletivo.
Água-verde é um bairro burguês e em Curitiba a alma pode ser cinza.
É raro encontrar alguém na rua, música alta e pessoas sorridentes.
Curitiba tornou-se um ambiente indecifrável."


Os artistas fizeram uso da câmera de vídeo quase que diariamente, seguindo fielmente a proposta do equipamento transformado em diário de bordo. Registraram os encontros, os passeios, as descobertas com a cidade e voltaram para o Rio de Janeiro com sete horas de imagens e experiências sonoras.

A intervenção ocorreu na fachada do Museu Oscar Niemeyer, por duas noites consecutivas. Os artistas projetaram diretamente no museu imagens do cotidiano da própria viagem a Curitiba e outras vivências já selecionadas para a ocasião. Imagens protagonizadas pelos três artistas sempre em momentos de harmonia e divertimento. Para a ação mobilizaram funcionários de um bar localizado na frente da instituição que gentilmente cederam a energia para o funcionamento dos projetores, além de convidarem à apreciação os clientes do estabelecimento que ali se encontravam.

"As formas puras, expressivas e dinâmicas do prédio contribuíram para uma correlação entre forma e conteúdo de uma maneira avançada. A projeção reflete a arquitetura e a arquitetura refaz as imagens da projeção."

Ao projetar imagens em grandes dimensões na fachada do MON, o Gráfica Utópica ou Circo dos Sonhos transforma-o em uma grande tela em branco onde as imagens se tornam pintura, o que pode ser visto de diferentes ângulos da cidade.

Para ler relato dos artistas: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/grfica-utpica-ou-circo-dos-sonhos.html
Para ver fotos: http://picasaweb.google.com/4territorios/GrFicaUtPicaOuOCircoDosSonhos#
Para ver o vídeo: http://br.youtube.com/watch?v=BHFMEFS2axs



Belém/Rio - Giseli Vasconcellos

Giseli iniciou seu trabalho para o 4territórios ainda em Belém durante a estadia de Guga em sua casa. Seu desejo foi mapear as redes de relacionamentos promovidas pela proposta do projeto. A convivência entre dois artistas de contextos distintos e suas reverberações em um ambiente próximo aos dois.

"O trabalho desenvolvido ainda em Belém, chamo-o carinhosamente Um horizonte inundado.
Trato aqui das artes impregnadas de convivências, que se derramam em tentativas de desordenar o rumo que nossas ruas e cidades direcionam."


"Era quase um aguaceiro do mês de março, daqueles que costumam também alagar a estrela. Aqui o céu parece calmo mesmo com as chuvas fortes, a força está nos pingos d'água. Foi assim que recebi Guga, num dia de chuva de pingo forte.
Na casa, não convenciono nenhuma chegada. E celebrar, acolher, beber e comer. E sempre as longas conversas. E a casa é o dilema da propriedade como espaço privado e espaço comum. A intervenção no espaço privado, a PROPRIEDADE.
Ali eu, Guga no 4Territórios e o nosso amigo comum, Arthur. A interferência na vida comum, direta e sem frescuras. A realidade cotidianamente vivida."


Já no Rio de Janeiro, a artista propôs uma interferência direta na rede social de Guga, mapeando caminhos percorridos, espaços vivenciados e amigos presentes. Giseli fez uso do material fotográfico produzido nos constantes encontros no bairro de Santa Teresa com artistas e amigos. O resultado dessa cartografia se transformou em um sítio na web onde estão disponibilizados fotos e relatos.

"O trabalho forma-se a partir dos olhares e recortes dos outros. A mais descarada edição, sampleagem, reciclagem e mixagem de interesses e idéias."

Seguindo o caminho de encontros e vivências experimentados pela artista em sua residência com Guga, Giseli convocou junto com os artistas André Amaral e Roosevelt Pinheiro uma confraternização com música e projeções de vídeos em pleno Largo das Neves, ponto de encontro em Santa Teresa.

Email-convocatória enviado pela artista:

"HOJE, vamos nos encontrar num horizonte de santa teresa?Então, roosevelt e amaral sugeriram depois do futebol e isso foi terça, lá no GOMES. guga, maurício, n(m)iltom, paulo, vinicius e catita ficaram animados com a idéia de uma festa na rua, PRA HOJE.
E ficou assim um encontro na rua, com o Polígono, som do Amaral e projeção, E O QUE OCORRER--no mais velho estilo [aparelho]-: das 16h às 22h, limite sonoro de santa teresa.
Fomos atrás de um lugar. Insistimos para o LARGO DAS NEVES com ponto de luz no bar (sem custo – a troca é consumir por lá) e ponto de apoio, a casa do Amaral.
E se rolar conexão podemos (re)transmitir também.
estou andando."

Para ler relato da artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/giseli-vasconcelos.html
Para ver fotos: http://picasaweb.google.com/4territorios/GiseliVasconcelos#
Para ver o vídeo:

Rio/Belém - Guga Ferraz

Por não ter avisado sua artista-dupla sobre o horário de sua chegada a Belém, Guga inicia sua residência antes mesmo de chegar à casa de Giseli. Ao esperá-la em um bar em frente a sua casa, o artista se apresenta àquela vizinhança – que, segundo os próprios moradores, tornou-se um dos pontos mais fortes de venda de droga da cidade.

Guga conviveu por dez dias com Giseli, sua filha Martina e o amigo Arthur Leandro, artista paraense e importante agitador cultural. Guga e Arthur já se conheciam do Rio de Janeiro e esse encontro tornou a estadia ainda mais familiar. O artista acompanhou a rotina de Arthur em uma rápida passagem por um hospital e participando de uma cerimônia importante em seu terreiro de umbanda. Com Giseli conheceu o mercado popular Ver-o-Peso e realizou sua interferência urbana em oito pontos da cidade. Guga elegeu pontos de maior fluxo de pessoas para colar seus cartazes com a imagem de um índio guerreiro. O trabalho faz alusão direta ao índio Galdino Jesus dos Santos, morto em abril de 1997 incendiado por cinco jovens de classe média-alta de Brasília.

A transposição dessa história real que impressionou todo o país para a cidade de Belém pontua questões relevantes acerca de uma identidade do norte do Brasil. Apesar de ser a região mais próxima a um contexto indígena, a população pouco se reconhece dessa forma. A metáfora do índio guerreiro se choca com a apatia no que se refere a uma resistência cultural.

"(...) foi uma viagem que, para muito além de discussões sobre arte ou interferência urbana, discute a interferência que um representa no outro e no que o outro está envolvido. Com essa viagem eu acho que se ligou uma chave na minha percepção do que é inter-ferir o outro e de como estar atento aos códigos locais pode te preservar de complicações ao reagir ou não ao o que é posto."

Para ler relato do artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/guga-ferraz_08.html
Para ver fotos:
http://picasaweb.google.com/4territorios/GugaFerraz#
Para ver o vídeo:
http://br.youtube.com/watch?v=VS5HKO4OOGA

Brasília/Rio - Daniela Bezerra

A artista de Brasília residiu por dez dias no bairro da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. Daniela, que já conhecia o outro Rio – o da Zona Sul –, experimentou a realidade de um subúrbio carioca de amizades de infância, cadeiras nas ruas, conversas de bar e edifícios superpopulosos de humanidades e universos individuais.

"Então pela primeira vez o Rio de Janeiro esteve como algo somente bom, sua exuberância em tudo não me abafou ou sufocou como ser. Sempre tive a impressão de que o Rio tem muito de tudo, coisas boas e também aquelas que não são. O Rio toca e te toca dentro e fundo, não sei ou não existe uma explicação para o sentir. Rio foi bom para mim."

Depois de ter recebido Pontogor na casa em que vive com seus pais e seu filho, Daniela teve a companhia constante do artista e de sua esposa Carol, que foram verdadeiros anfitriões na cidade. Primeiramente, a artista optou por realizar sua intervenção em frente à Igreja da Penha, em meio à movimentação de fiéis, em uma performance para dificultar o acesso à escadaria de 365 degraus.

"O primeiro lugar que pensei foi a frente da Igreja da Penha – sua subida difícil, o peso de sua história e função por demais forte. Muita coisa quando a busca é pelo simples. Riscando quadrados pensava na restrição do espaço. O Rio... é muita coisa restringir ao espaço que me abrigou."

Porém, não tardou para Daniela eleger seu local ideal para trabalhar: um grande cruzamento de ruas em meio às ruínas do complexo de fábricas têxteis do Curtume Carioca. Um local inóspito, repleto de passado e desprovido de presente. Ambiente de práticas espirituais, oferendas a deuses, desmanche de carros e cemitérios ao ar livre.

Nesse contexto, no dia 16, às 16 horas, Daniela riscou quatro quadrados de cor azul usando 40 caixas de sabão em pó.

A artista persegue em sua obra a matematicidade da vida e dos acontecimentos. O trabalho de Daniela faz direta referência ao que ela entende por "viagem". Descolar-se de Brasília e da vermelhidão do seu cerrado, aprender a enxergar o azul do mar. O elemento que carrega a cor desejada tem nessa intervenção outras e múltiplas leituras; representa nesse contexto a retirada de impurezas, desprover-se, seja por meio da necessária limpeza de uma cidade caótica que, diferentemente das linhas retas e organizadas do horizonte de Brasília, cresce fluída e desordenada, ou quem sabe por meio da difícil purificação dos sentimentos humanos. Não custa apontar que na trajetória poética da artista o uso de heterônimos e personagens que dialogam e se contradizem revela uma obra essencialmente autobiográfica.

"Encontro-me em tudo que é distante de mim: prédios altos, pessoas na rua, comércio, ruas com nomes de países. Diversidade de coisas, mas uma diversidade diferente de Brasília. Como uma estrutura que remete a tradição. Então como? Diante de tudo, como? De minhas necessidades, a cor do contexto, os números, a necessidade daquilo que parece simples e talvez por isso difícil. Encontrei o ponto, sua história ou a história que se desfaz e dá inicio a uma outra (o Curtume em volta do qual cresce o bairro). Recordo da noção de identidade, seus números e do que se desfaz na busca por uma cor. Mar? Céu? Cor?"

A tragicomédia desse episódio – que bem representou a dualidade dessa cidade que nos inebria com suas cores e acontecimentos – ocorreu depois de seu suposto fim. Quando todos já estavam a duas quadras de onde a intervenção foi realizada, Pontogor retorna sozinho ao local para registrar suas últimas imagens. Dois homens se surpreendem com sua chegada e param o que estavam fazendo: com pedaços de papelão e um saco plástico eles roubavam de um suposto santo protetor o sabão em pó que estava no chão.

– Isso que vocês estavam fazendo é algo espiritual, para algum santo? Vamos ter problemas se levarmos para casa?

– Não. Isso é arte. Fiquem à vontade.

Para ler relato da artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/daniela-bezerra.html
Para ver fotos:
http://picasaweb.google.com/4territorios/DanielaBezerra02#
Para ver o vídeo:

Rio/Brasília - Pontogor

Pontogor foi o último artista convidado a participar do 4territórios, objetivamente duas semanas antes de sua viagem.

O artista chegou a Brasília na madrugada do dia 26 de março e sua primeira impressão da cidade "(...) é que está afundada nas nuvens, em um giro de 360º o horizonte está por toda parte". Seus primeiros dias foram de reconhecimento do espaço e aprendizado de como é viver em uma cidade inventada para ser lógica e pragmática. As saídas com os amigos de Daniela Bezerra eram necessariamente de carro devido às cruéis distâncias geográficas e à insuficiência do transporte público, o que acarretava para ele grande dificuldade em se locomover independentemente.

"Eu sentia uma grande dificuldade de improvisar alguma interferência naquela cidade de amplos espaços vazios, sentia que qualquer coisa feita seria engolida pelo lugar e se tornaria um ponto quase invisível. Comecei a reparar que o plano-piloto não era tudo, Brasília não era só aquilo e as cidades satélites começaram a me chamar a atenção."

Daniela seguiu à risca uma das propostas da curadoria de inserir o artista visitante em seu circuito artístico. Pontogor participou de reuniões, almoços e eventos de artistas brasilienses, formando uma rede de contatos e futuras parcerias. Em um desses encontros, numa chácara pertencente à família da artista Marta Mencarini, Pontogor encontrou o local para sua intervenção: uma casa abandonada, cuja construção estava por finalizar, sem janelas ou portas e infestada de insetos e pulgas.

Pontogor elaborou todo um sistema elétrico para a casa com uma grande quantidade de interruptores, lâmpadas de alta potência e fios de grandes dimensões. Da sala central o artista controlava o acender e apagar de todos os cômodos da casa a partir de um objeto – como um painel de controle – que ele intitulou de Piano (quinze interruptores de luz presos em um pedaço de madeira).

"Passei por volta de vinte minutos compondo uma música visual que podia ser vista pelas casas do entorno. A ação foi registrada em vídeo e fotografia. O trabalho foi realizado na noite do dia 5 de março, com a ajuda fundamental de Daniela Bezerra e Marta Mencarini."

Uma curiosidade sobre a intervenção foi que a tal casa estava literalmente tomada por pulgas e insetos, como uma praga em um pequeno universo. Moradores da área advertiram-no para que não entrasse, pois as conseqüências poderiam ser desastrosas.

Pontogor realizou a ação totalmente envolto e devidamente embalado em plástico de conservação de alimentos, quase como num figurino cibernético para seu concerto visual. A infestação do ambiente era tamanha que dois dias depois da realização do trabalho ele ainda era surpreendido por um "visitante" escondido em sua pele ou entre suas roupas.

Para ler relato do artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/pontogor.html
Para ver fotos: http://picasaweb.google.com/4territorios/Pontogor#
Para ver o vídeo:
http://br.youtube.com/watch?v=zjHS8-e-82c&feature=related

sábado, 13 de setembro de 2008

Olinda/Rio - Lourival Cuquinha

Desde novembro de 2007, Lourival vive em Londres com sua família – esposa e dois filhos – em situação totalmente distinta da sua casa em Olinda. Aproveitando suas férias no Brasil, no mês de fevereiro, o artista conseguiu cumprir seu compromisso de participação no Projeto 4territórios.

Depois de ter recebido Ivan em Olinda, Lourival embarcou para o Rio de Janeiro, de onde voltaria direto para a Inglaterra. Desta vez, a convivência entre os artistas foi mais estreita e diária, já que Ivan vive em um pequeno apartamento e não havia uma situação festiva na cidade. Lourival já conhecia bem o Rio de Janeiro e em poucos dias já havia definido sua intervenção. A ação deveria ser realizada em um edifício ícone do alto empresariado carioca. O eleito foi o Edifício Argentina, que, localizado na praia de Botafogo, abriga três consulados, alguns bancos multinacionais e uma famosa produtora de cinema. Seu público-alvo eram os executivos do próprio edifício.

Com oito balões de gás amarrados a um pequeno DVD portátil, Lourival fez subir pelo ar imagens de pessoas que desejaram um dia voar. Capturadas da Internet e datadas do início do século passado, essas imagens eram exibidas em loop e faziam referências diretas ao sonho da conquista da liberdade do vôo.

Cuquinha conseguiu, com a ajuda de mais quatro artistas e da curadora do projeto, que seu trabalho, intitulado Queda livre, chegasse até a metade do alto edifício, chamando a atenção do público passante e de receosos funcionários das empresas e órgãos ali instalados. Aos poucos e de forma espaçada, podíamos avistar pessoas se aproximando cautelosamente de suas janelas em uma posição inédita até então: a de ser o observado e não apenas observar o lado de fora. Como já era esperado, em poucos minutos fomos obrigados a encerrar a intervenção, após uma educada abordagem da equipe de segurança do prédio e de policiais responsáveis por aquela jurisdição.

Lourival busca em seu universo artístico evidenciar a liberdade tanto da vida quanto da arte e a relação dessa liberdade com as instituições. O ato singelo de fazer voar – como uma pipa – imagens de sonhos perseguidos e evidentemente frustrados se torna uma paródia da própria vida quando seu destino são os olhos amedrontados de uma pequena parcela de cidadãos que vive com base em estereótipos e é desprovida de experiências fracassadas ou da sensibilidade do imaginar criativo que se transforma em asas.

Para ler relato do artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/relatrio-lourival-httpdownload.html
Para ver fotos:
http://picasaweb.google.com/4territorios/LourivalCuquinha
Para ver o vídeo:
http://br.youtube.com/watch?v=p0F__-bmZKU